Górgias

Quando Górgias foi escrito por Platão, Atenas vivia uma profunda crise econômica e política. Após uma longa guerra com Esparta, Atenas perde a guerra e o poder que tinha entre os gregos. Mais tarde recupera a democracia, por volta de 403 antes de Cristo, mas os recursos econômicos estão mais escassos do que nunca e a Aristocracia culpa os oradores e democratas. Os cidadãos perdem o interesse em participar nas sessões da Assembléia e com o tempo, a Democracia é substituída por uma Oligarquia.

Platão usa sua obra para demonstrar a função da Retórica e como ela deve ser utilizada. A disputa de Sócrates acerca da retórica e o seu valor vai permitir estabelecer o confronto entre dois usos opostos da linguagem como instrumento de poder e como instrumento de verdade.

Poderíamos bem dizer que a obra de Platão é bem atual para os nossos dias já que vemos muitos políticos fazendo uso da oratória, não como instrumento da verdade, mas como forma de manipulação para se manter no poder.

Górgias começa seu discurso afirmando para Sócrates que o maior bem da retórica é deixar os homens livres e torná-los aptos a dominar outros. Por meio da retórica podem convencer juízes, senadores e os cidadãos nas assembleias. Quem dominasse a arte da retórica poderia transformar outros em escravos e acumular riquezas. A persuasão seria a finalidade da retórica.

Sócrates tenta argumentar para demonstrar que a arte da retórica tem que servir a algo maior e não apenas aos interesses próprios dos oradores. Pergunta para Polo: ‘Quem faz alguma coisa visando determinado fim, não quer aquilo que faz, mas o fim que tinha em vista quando fez o que fez’. Ou seja, basicamente há um propósito, um objetivo nas ações que alguém emana, as ações mesmo as mais puras visam atingir um télos, um fim teleológico.

De acordo com Sócrates a felicidade depende de ser justo pos os injustos são infelizes e mais infeliz ainda se forem punidos.

Platão destaca no diálogo entre Sócrates e Polo ainda o hedonismo e o utilitarismo ao dizer que ‘sempre que duas coisas belas uma é superior à outra, é que a ultrapassa por uma dessas qualidades ou por ambas, vindo a ser mais belo ou pelo prazer, ou pela utilidade, ou por esses dois fatores ao mesmo tempo’.

Então, para Sócrates mesmo algo como um castigo serve a uma utilidade que é produzir justiça e a pessoa que sofre punição, embora a punição pareça algo ruim, tira vantagem de se tornar melhor no caso de ser punido justamente, por isso não deveria ser utilizado a retórica para fugir da punição quando ela for justa.

Talvez por isso haja tanta injustiça no mundo de hoje, talvez por falta de castigos, pois de acordo com Sócrates o castigo nos deixa mais prudentes e justos, atuando a justiça como um remédio contra a maldade.

Alguns só veem no castigo algo doloroso mas se esquecem do que ele tem de saudável, ignoram que o castigo pode ajudar uma alma corrompida, injusta e ímpia a se transformar em açguém melhor. Por isso que de acordo com Sócrates cometer injustiça é o segundo mal em importância, o maior de todos é cometer alguma injustiça e não ser punido.A ordem e a harmonia tem o nome de legalidade e lei que é o que deixa os homens justos e ordeiros.A virtude de qualquer coisa não vem por acaso, é o resultado de uma certa ordem, de retidão e da arte adaptada à natureza de cada um.

Sócrates enfatiza nos seus argumentos que a meta que devemos ter em vista para dirigirmos nossa vida, tanto nos negócios particulares quanto nos públicos é envidar esforços para que impere a justiça e a temperança não permitindo que os apetites fiquem desenfreados nem procurando satisfáze-los. Alguém que só pensa em si mesmo e nos seus prazeres não conseguirá viver em sociedade e possuir amigos.

De acordo com a grandeza do mal é belo poder combatê-lo nas mesmas proporções e vergonhoso não estar em condições de fazê-lo.

Uma parte do discurso de Sócrates me chamou muito a atenção pela atualidade. Vou reproduzir aqui e vejam se não condiz com o momento que estamos vivendo no Brasil: Verifico que quando a cidade ataca um desses políticos suspeitos de malfeitorias, eles se mostram indignados e se queixam como se estivessem sendo horrivelmente maltratados. Prestaram serviços sem conta à cidade, é o que todos dizem e agora ela o arruina injustamente. Porém tudo isso é falso. Dizendo-se professores de virtude, muitas vezes acusam os discípulos de serem injustos com eles, por se negarem a pagar o que devem e mostrar-se mal agradecidos pelos benefícios recebidos. Poderá haver alegação mais absurda? indivíduos que se tornaram bons e justos por causa da justiça que seu professor implantou neles serem acusados de ser injustos e proceder mal, de possuir uma injustiça que não deveria estar neles ?

Essa passagem me lembra muito os políticos de hoje que alegam que fizeram o bem ao povo, que tiraram o povo da pobreza e que trouxeram mais justiça social, mas estranhamente o próprio povo que não deveria ser tão pobre quanto os políticos alegam são os que reclamam da política, já que sofrem com o desemprego e com a falta de dinheiro, além é claro da violência que se alastrou.

Deste modo, porque deveríamos gastar algum tempo lendo Górgias ? Porque percebemos que a humanidade não mudou e alguns bons de papo, políticos principalmente, usam a oratória para manipular as multidões, como manipularam a população a fazer protestos contra o aumento da passagem de ônibus por causa de vinte centavos, mas essa mesma população se cala diante de todos os aumentos de energia e combustível e a queda do poder aquisitivo. Simplesmente porque alguns são bons em usar as palavras para convencer, para manipular e conduzir e principalmente para tentar livrar o pescoço das cordas da justiça, já que muitos desses estão envolvidos em esquemas de corrupção.

Qual deveria ser a pena para esses que manipularam e abusaram da máquina pública ? Sócrates diz que a pena merecida para quem recebe castigo, quando é punido com justiça é tornar-se melhor e tirar algum proveito do castigo ou servir de exemplo para outros, a fim de que estes, vendo-os sofrer, se atemorizem e se tornem melhores.

De acordo com Sócrates a punição produz bons frutos, ela não apenas ajuda a corrigir o malfeitor mas também incute em outros o temor de fazer o que é errado.

Górgias é um livro atualíssimo para os nossos dias e faria bem em ser estudado nas escolas e divulgado já que a bem dizer nosso país anda fora dos trilhos há um bom tempo, faltam-nos estadistas e pessoas de bem para ajudar a recolocar o país no rumo certo e se as pessoas refletissem sobre a mensagem do livro evitaria também ser manipulados por políticos sem escrúpulos que só querem o seu voto visando seus próprios interesses.